quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Truffaut elogiou aquela beleza

"Mas como é que uma cara tão bonita só fez um filme?", estranhava François Truffaut, que naquele Festival de Cannes apresentava A Noite Americana, ao conversar com a protagonista de A Promessa, a obra de António de Macedo seleccionada para a competição oficial em 1973. Sentada na mesma mesa do mítico realizador da nouvelle vague, Guida Maria já tinha registado o elogio do cineasta à sua beleza naquele jantar em Nice. E, num ambiente estranho para os portugueses (até àquela altura só tinha ido a Cannes, no longínquo ano de 1946, o filme Camões, de Leitão de Barros), deve-se ter esquecido de que a sua primeira experiência cinematográfica tinha sido em Dois Dias no Paraíso, de Artur Duarte. Só que contracenara com Milu e Virgílio Teixeira quando tinha apenas sete anos!
A mulher que se estreou nos palcos em 1957, na peça de Ramada Curto Fogo de Vista, e que hoje toda a gente aplaude em Monólogos da Vagina (actualmente de novo em cena, no Casino de Lisboa, numa segunda versão, desta vez com três actrizes, após o sucesso do seu monólogo em 2000) cresceu entre as grandes figuras do mundo teatral. Afinal, era filha de Luís Cerqueira, o consagrado actor de muitas peças e figura conhecidíssima da televisão. E a sua mãe, que baptizava os filhos com nomes das personagens do livro de Júlio Dinis As Pupilas do Senhor Reitor (Guida, Clara, Pedro - Daniel foi o neto), tinha vaidade em ser casada com um actor e até jogava à canasta nos bastidores.
O filme de António de Macedo, como recorda a protagonista, que se lembra bem do frio que a equipa passou no areal dos Palheiros da Tocha - pois a rodagem foi em Janeiro, a actriz usava um vestidinho de chita e a praia estava gelada -, tinha tido problemas com a Censura e só seria exibido após o 25 de Abril. A obra de Bernardo Santareno, o dramaturgo que Guida Maria conheceu bem e era uma pessoa de quem gostava muito, era adaptada com uma cena de nu integral que envolvia a personagem Maria do Mar. O realizador António de Macedo, que o cinéfilo pai da actriz elogiava por conhecer as suas obras anteriores (já tinha feito as longas-metragens Domingo à Tarde e Sete Balas para Selma), mas que ela na altura do convite não conhecia, avisou--a logo que, se não concordasse em fazer aquela cena, nem valia a pena continuarem a conversar. Guida Maria retorquiu que ninguém iria pagar para a ver nua, mas, se não fosse algo gratuito, ela era uma profissional e, obviamente, aceitava. António de Macedo até a informou de que o director de fotografia (Elso Roque) era muito elegante e não haveria qualquer grande plano. Afinal, com João Mota (interpretava o marido) em cima dela, nada se via de especial no ecrã.
A relação da actriz com o cineasta acabaria por se repetir em O Princípio da Sabedoria (1975), A Bicha de Sete Cabeças (1978) e Os Emissários de Khalom (1988) - Guida Maria, embora com a parte mais relevante da sua carreira nos palcos, participou ainda nos filmes O Barão de Altamira (Artur Semedo), O Vestido Cor de Fogo (Lauro António), Serenidade (Rosa Coutinho Cabral), No Dia dos Meus Anos (João Botelho).
Depois de Cannes, a actriz foi a diversos festivais com A Promessa, filme premiado em Belgrado e em Cartagena. Mas nenhuma dessas experiências seria comparável à do Festival de Moscovo, essa gigantesca mostra mundial onde reencontraria o actor-fétiche de Truffaut (e um dos beneficiados por a portuguesa não apreciar salmão nem caviar), Jean-Pierre Léaud. Os seus companheiros desse mês soviético, depois de viajar com Michel Giacometti (o etnomusicólogo tinha sido autor do registo musical do filme, onde se incluíam choros de carpideiras) e Carlos Paredes, eram os brasileiros que comentavam, entre risadas, "Ai! O Lenine está tão carequinha", o chileno e o uruguaio que "embrulhavam as garrafas de vodka no jornal Pravda", os espanhóis e o peruano - e um pintor palestiniano, que era colaborador de Arafat, se apaixonou por ela e a perseguia por todo o lado cantando em árabe.
Aliás, mesmo excluindo os homens da sua vida, bem retratados na biografia (outro texto), não era difícil ficar encantado por aquele rosto que levara londrinos a aproximar-se com cadernos de autógrafos, confundindo-a com Julie Christie, quando a actriz de Doutor Jivago estava no auge da fama e Guida Maria, para fugir do Margarita à espanhola ("ingleses e americanos não conseguem dizer Guida"), aceitava ser tratada por Julie na maternidade inglesa - em que percebeu o disparate português de as mães não tomarem banho nos 30 dias após o parto (40, se fosse rapaz).
As peripécias russas daquele grupo são inumeráveis, desde a divertida tentativa de encontrarem um soutien do tamanho da pequena actriz portuguesa, num país em que tudo parecia feito para matronas, até se distraírem no piso dos Impressionistas e deixarem fechar o Museu Ermitage, ficando lá dentro até um vigilante lhes abrir a porta. Mas, já com o 25 de Abril a abrir os horizontes da política e toda a gente a ser do PCP, a viagem fez com que Guida Maria ficasse logo certa de que não era aquele o modelo de sociedade que subscrevia. A visão inicial da velhinha, ao cair da noite, a varrer sozinha a gigantesca Praça Vermelha nunca lhe saiu da retina.
Acabaria por se aproximar da LUAR, a organização pouco institucional de Palma Inácio, Camilo Mortágua, Fernando Pereira Marques, Francisco Fanhais, tantos outros. E, apesar de ser já uma figura bem conhecida do teatro, participou em vigilâncias em cima dos telhados - situações que hoje lhe provocam um sorriso.
Nesses anos da revolução participou também na campanha de alfabetização que levou militares e artistas a Trás-os-Montes para explicarem às pessoas o que tinha sido o 25 de Abril. Naquelas aldeias dos concelhos de Valpaços e de Chaves, onde Guida Maria esteve duas semanas, as pessoas sentavam os forasteiros à lareira, obrigavam-nos a provar o salpicão ou a farinheira, mas muitos deles nem sequer acreditavam que Salazar já tivesse morrido. "Ai! Menina! Se o chapéu-de- -chuva se parte", desabafava um velhote ao ver, pela primeira vez, os pára-quedistas.
O calendário foi correndo e a actriz que integrou, a partir de 1978, a Companhia Residente do Teatro Nacional D. Maria II sentiu necessidade de ir aprender mais. Conseguiu que o então secretário de Estado da Cultura, Vasco Pulido Valente, lhe concedesse uma bolsa para frequentar o American Academy of Dramatic Arts de Nova Iorque. Afinal, queria a formação de alguns dos seus actores preferidos.
Até ao elogiar António Silva - com quem conviveu na tertúlia da "brigada do reumático" que se reunia no bar do D. Maria II (e integrava também Artur Duarte, Assis Pacheco, Irene Isidro, Josefina Silva) e que considera o melhor actor português de sempre, com "uma fleuma britânica" que equipara à de David Niven - explica que a sua forma de representar nada perdeu com o correr do tempo e, "ainda hoje, seria comparável a muitos bons actores americanos".
Lembra-se de estar em Belgrado, depois de a PIDE lhe carimbar no passaporte a autorização "para sair e para voltar" (faltavam uns meses para cair o fascismo e acabar a polícia política), ainda na época em que andou a percorrer os festivais com o filme de António de Macedo, e um dos seus vizinhos no hotel ser o cineasta Sam Peckinpah, "alto e sempre ébrio, com botas e chapéu de cowboy, que tinha rodado Cães de Palha". Guida Maria quis saber como é que era trabalhar com Dustin Hoffman. O cineasta explicou-lhe então que o actor aceitava um guião, passava seis meses a estudar a personagem e, quando chegava ao plateau, já não tinha dúvidas.
Anos mais tarde, quando dançava no Studio 54, discoteca nova-iorquina tão na moda que se formavam filas quilométricas para ali entrar ao fim-de-semana, um tipo passou a noite a acenar-lhe para a pista e a sorrir para ela naquela escuridão. No dia seguinte, um amigo puxou pelo jornal e comentou a notícia: Dustin Hoffman tinha estado na discoteca na véspera. Só aí é que se fez luz no espírito de Guida Maria - desdenhara o seu ícone. E conclui com o riso habitual: "Deus põe-me as coisas à frente e eu não as vejo."

por FERNANDO MADAÍL
In http://dn.sapo.pt/gente/Interior.aspx?content_id=1293076
Foto:
http://www.arnadal.no/film/actors/images/truffaut_francois.jpg

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