Escrevo esta crónica na sexta-feira, 3. Acabo de ler uma boa dúzia de jornais Transmontanos (e outros). E todos me estimulam a repisar um conceito economicista que transporto para Trás-os-Montes e Alto Douro. São estes jornais e aquilo que deles transpira que incutem naqueles que dali são, ali nasceram, ou dali nunca saíram, que me incentivam a estar cada vez mais orgulhoso das minhas origens telúricas. Desde a Califórnia, onde vive o eng.º Jorge Fernandes, oriundo de Vilas Boas (Chaves), que foi condecorado pelo Presidente da República, no último 10 de Junho, a Bridgeport, de onde o Domingos Dias, nos relata o que ali se viveu com a comunidade, no dia 14, a Melbourne (Austrália).De Fafe chegam-me mais dois livros do Artur Coimbra (natural da Borralha) e desde há décadas a pontificar na cultura Fafense; de Lisboa a voz autorizada de João Soares Tavares, a reafirmar a epopeia de João Rodrigues Cabrilho, descobridor da Costa da Califórnia; de Mirandela mais um notável trabalho do doutor Virgílio Tavares sobre Moncorvo.
A coroar estes e outros exemplos da boa forma com que os Transmontanos engrandecem Portugal e a Portugalidade, teremos hoje à noite, a inauguração do Ecomuseu de Barroso que justamente vai perpetuar o nome do Padre Fontes ao futuro de uma região que ele ajudou a repor no mapa do país real.
Mais por graça do esforço conjugado dos Transmontanos, políticos ou não, a Região de Trás-os-Montes e Alto Douro recuperou do atraso social que vinha enfrentando desde há muitas décadas. Pude rever Bragança, dia 17 de Junho, aquando da visita do PR. Um grande acto de justiça para com um vulto da cultura Portuguesa: Adriano Moreira. Uma cidade que deu saltos qualitativos inegáveis. Chaves, graças aos diversos executivos que a cidade tem tido, aliados ao empreendedorismo dos seus agentes económicos, é uma cidade de fronteira que honra quem entra e quem sai, porque sabe receber e tem condições para essa fidalguia. Os concelhos fronteiriços, num saudável espírito de competição bairrista, têm sabido entender-se e tudo cheira a progresso, a estruturas básicas que fazem inveja a outras que estagnaram e que, dificilmente, poderão recuperar desta pedalada intensiva que não se deve apenas aos dinheiros comunitários. Saber geri-los é um condão que os Transmontanos, políticos, técnicos ou administrativos que outros não fariam melhor.
A região do Alto Tâmega, ainda que com executivos de diferentes cores políticas, desde a revolução de Abril, sempre soube distinguir o trigo do joio. E aquilo que hoje podemos observar é o resultado dessa conjugação de esforços e vontades. Daí que esta mensagem não seja apenas para os gestores actuais, mas para todos aqueles que souberam colocar os interesses de todos acima dos interesses particulares ou de grupo.
É com este espírito de gratidão que me apraz saudar autarcas (no poder ou na oposição), técnicos e populações em geral. Porque uma andorinha só não faz a Primavera.
Esta pujança e esta generosidade que estiveram na base do surto de progresso que envolveu a nossa Região permitem-nos fixar o chavão que chamei a título desta crónica e que já antes usara. Ser Transmontano é, verdadeiramente, sinónimo de qualidade certificada. Tal como o fumeiro de Barroso ou de Vinhais, como o presunto de Chaves ou de Montalegre, como o folar de Valpaços, as castanhas de Carrazedo de Montenegro, o vinho dos mortos, de Boticas, o moscatel de Favaios, os pasteis de carne de Chaves, as alheiras de Mirandela, o Toucinho do Céu de Murça...
O cineasta João Botelho terminou um filme sobre as Terras de Barroso a que chamou: «Para que este mundo não acabe». O título pode levar a pensar que «este reino maravilhoso» corre o risco de acabar. Não será esse o espírito do argumento. De facto, em 1939, Montalegre, por exemplo, tinha cerca de 35 mil habitantes. Hoje tem um terço. Pelo contrário: quem viveu há um século atrás, revendo hoje estas terras, não as conhece. Porque foi meio século de progresso em todas as frentes. A Terra é fecunda, embora agreste. A Gente é nobre, honrada e hospitaleira. Do cansaço nasce a força moral que exige reciprocidade. Quando se come o pão que se merece, se reparte o pouco que se tem e se dorme com a consciência tranquila, bem pode dizer-se que se vive com dignidade, sem atropelos ou azedumes.
Viver em Trás-os-Montes é, pois, um privilégio. Mesmo em tempo de crise. Porque há solidariedade. Há reciprocidade. E há respeito pelos valores sociais. Mesmo que os media só desta Terra falem quando há crimes de sangue, anormalidades, catástrofes da natureza.
Quando se fala em qualidade de vida há que ter em atenção estes factores que fazem felizes as pessoas. Em Trás-os-Montes não há fingidores, nem hipócritas, nem espírito dualista. Quando se tem razão exige-se clareza. Quando se ignora o assunto, não se entra no debate com espírito de vitória. Quando se é humilde respeita-se o adversário.
Urge proclamar num estatuto de personalidade esta característica Transmontana. Tudo hoje deve contar para construir a identidade de um Povo, de uma Região, de uma Comunidade. E por tudo isso bem pode repetir--se que ser Transmontano é igual a certificado de qualidade.
Por Barroso da Fonte
In http://www.avozdetrasosmontes.com/noticias/index.php?action=getDetalhe&id=3707









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