segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Bairro das Lages, que te está a acontecer?!

Todos os habitantes de Valpaços, do concelho e até de outros concelhos vizinhos, conhecem o Bairro das Lages (ou Bairro 1º de Maio), mas, certamente, todos dirão: “Quem te viu e quem te vê!!!”
Longe vai o tempo em que tinha que fazer, várias vezes por dia, caminhadas para ir para a escola (desde a Primária, junto ao Hospital, até, já mais velho, à Escola Secundária) que ficava, como dizíamos, e ainda o dizemos, na vila. Nesse tempo afirmava (e afirmo!), com orgulho, sou das Lages.
Recordo o meu Bairro com muita saudade e, neste momento, com pena, tristeza e alguma raiva, por tudo aquilo que lhe está acontecer, pior, que estão a deixar acontecer. Longe vai o tempo em que o Bairro das Lages era considerado o maior bairro da Vila (actual Cidade); longe vai o tempo em que os partidos políticos se “batiam” pelos votos dos eleitores do Bairro, fazendo comícios, magustos, prometendo mundos e fundos. Recordo como o Bairro era cheio de vida, cheio de jovens, muitos jovens, muito bulício, um saudável bulício. Parecia uma grande procissão quando íamos para a escola, ou para os encontros de jovens durante a semana da Quaresma na Igreja Matriz. Recordo-me das brincadeiras na “Quinta do Martins”!
Nesse tempo dizia (dizíamos), em tom de brincadeira, que não era qualquer um que poderia pertencer ao Bairro das Lages; mais, não era qualquer um que lá poderia entrar, pois existiam fronteiras pelas, então, duas entradas do Bairro. Com o tempo essas “fronteiras” foram recuando: primeiro foi o famoso paralelo a delimitar o “território” e, depois, o alcatrão da actual Rua do Freixo, alcatrão que ficou, qual terramoto de 1755, às portas de Campo d’Ourique, é o mesmo que dizer, ficou às portas do Bairro, porque, nas Lages, asfalto foi coisa que nunca entrou. Aliás, a última “grande” intervenção de fundo e a fundo, que me lembro, foi mesmo a colocação do pavimento em paralelo, não sem antes rebentarem com grande parte da dura rocha para, posteriormente, fazerem subir as ruas (ou as casas é que desceram?!), aumentando assim o nível de humidade das habitações, para além de, não raras vezes, o meu Bairro parecer um campo de futebol, tal é a quantidade de erva…
Era um Bairro de trabalhadores, era um Bairro solidário e de gente que lutava pela terra, que dava o melhor por Valpaços. Recordo-me de se dizer, aquando da construção do, então, novo quartel dos bombeiros, que devia ser construído no Bairro das Lages, tal era o número de soldados da paz que lá viviam. O mesmo se pode dizer da Banda de Música, do Rancho Folclórico, etc. Recordo com saudade todo o trabalho solidário que foi preciso para erguer a Capela de Nossa Senhora de Fátima…
Caros leitores, há quanto tempo não passam no Bairro das Lages? Há muito, certamente. Agora nem os nossos vizinhos de Valverde por lá querem passar! Mas passem! Vejam com os vossos olhos!
Pois é, o Bairro das Lages está transformado numa ilha dentro da cidade de Valpaços! Dirão vocês que assim é que é, pois cidade que é cidade tem ilhas! A construção faz-se ad hoc, o estacionamento de carros, carroças, camiões de sucata e outros derivados é, como diria John Locke, de acordo com a Lei do Estado de Natureza. Será que ninguém vê esta situação? Será que ninguém tem coragem para mudar a situação? Será por que o Bairro já não tem (ou será que ainda tem?) o mesmo poder político que tinha? Tantas e tantas vezes, principalmente por altura do Natal e da Páscoa, lá tenho que dar mais umas voltas pelas vielas do bairro para poder ir estacionar em frente de casa dos meus pais, porque a estrada está “cortada” pelos tais camiões e derivados e não adianta chatear-me ou chamar as autoridades. Já agora, e as autoridades? A GNR? Essa fica longe e tem os bairros e ruas novas, que até têm nomes de cidades geminadas, mesmo que essas ruas tenham só uma casa, para vigiar. Ora, aí está outra recordação! Dizíamos que o bairro era como Nova Iorque, segundo a canção dos U2, “onde as ruas não têm nome”.
Longe vai o tempo em que as chaves ficavam nas portas, longe vai o tempo em que dormíamos de janelas abertas por causa do calor do verão. O Bairro está a morrer (apeteceu-me tirar o itálico)! As pessoas mais velhas não são perenes! Partem e com elas vai alguma da alma do Bairro. As suas casas ficam ao abandono, pois os familiares moram noutro sítio, ou então não estão para desperdiçar dinheiro na reconstrução das casas. Estão à venda, mas ninguém as quer comprar pois, com o actual estado do Bairro, não é um investimento. Por quê? Porque o Bairro já não é o mesmo! Porque o Bairro já não é nosso!
Através deste artigo faço um apelo aos responsáveis pela cidade de Valpaços: já é tempo de voltarem a olhar para o Bairro das Lages! Não chega colocar umas placas informativas com a orientação para o Bairro, aliás, segundo a minha opinião, essas placas ainda vêm acentuar mais o hiato entre a cidade e as Lages, pois parece, de facto, que é um mundo diferente, que não pertence à cidade.
O Bairro, por toda a sua História, e por toda a sua gente, merece mais consideração, merece mais respeito. Merece um projecto e uma intervenção de fundo, no plano urbanístico e social. O poder do Bairro das Lages e das suas gentes não desapareceu, está apenas adormecido, pois, se agora são poucos os habitantes do Bairro e muitos deles não foram nascidos e criados nele, muitos são os que lá nasceram, cresceram e que não esquecem as suas raízes. Os que, então, eram jovens, hoje também são eleitores…
Pela minha parte, podem ter a certeza, tudo farei, para que este tema não morra, para que o meu Bairro não morra. Aos responsáveis digo: se o Bairro das Lages continuar a morrer é a cidade que morre, são os Valpacenses que morrem e muito da sua História.
O que será de um povo sem a sua História?
(As fotos que se seguem são ilustrativas do estado em que se encontra o Bairro das Lages)



















BAIRRO DAS LAGES

Na colina escabrosa a repontar
Em gafos contornos de lhaneza,
Confluem as casinhas em devesa
Dispersas num vislume singular!

Logo arroubo... ó divo altar;
- Quem te deu tanta beleza?
Foi o agregado a Natureza
P'ra te ver e idolatrar?!...

Bairro das Lages, berço aninho:
Tuas fráguas parecem marés
A embalar a Vila a teus pés!...

E quando despertas - cedinho -
Abraças com muito carinho
Valpaços de lés-a-lés!...

Foreval - 1964 (Do livro em preparação:
Monografia Poética da Vila de Valpaços)

2 comentários:

Eugénio Borges disse...

Caro e amigo Sérgio,

Não posso deixar de te felicitar por este alerta extremamente importante que aqui fazes no teu espaço relativamente a um dos bairros mais emblemáticos e históricos de Valpaços. Fica um abraço solidário e a promessa de que te ajudarei a não deixar morrer o tema, inclusivamente, caso estejas disposto, leva-lo a uma sessão da Assembleia Municipal.

Um abraço

Eugénio Borges

Sérgio M. disse...

Olá Eugénio. Obrigado pelas palavras. Faço questão, se não te importares, de levares o problema à Assembleia. Obrigado. Abraço.